Comunicar para cuidar”: Sônia Crisóstomo e o bem-estar nas organizações

Sônia Crisóstomo, Country Manager da World Happiness Foundation em Portugal, diplomata civil humanitária, escritora e palestrante, construiu uma trajetória marcada pela reinvenção e pelo propósito. “Venho de um contexto familiar desafiador e, desde cedo, compreendi que aquela história não precisava definir o meu futuro”, conta. Foi assim que mergulhou no autodesenvolvimento e, mais tarde, se tornou referência em felicidade e bem-estar nas organizações, especialmente após a publicação dos livros Escolha a Felicidade e Felicidade Descomplicada. “Sempre tive uma escuta diferenciada, e isso abriu espaço para que outras pessoas se aproximassem em busca de acolhimento e diálogo sem julgamento. Transformar isso em impacto coletivo foi um desdobramento natural.”

A transição da área de TI para a Psicologia Positiva não foi simples. “O maior desafio foi desconstruir a identidade de executiva de TI para ser reconhecida em outro campo”, afirma. Houve estranhamento de colegas e até críticas, mas ela se manteve firme: “Sempre me pergunto: o que pode ser mais relevante do que o desenvolvimento humano?” Hoje, ela leva esse olhar para dentro das empresas e também para projetos sociais. “Dar aula de felicidade em uma business school é menos sobre ensinar e mais sobre despertar consciência. Ambientes organizacionais saudáveis começam em líderes mais conscientes, capazes de reconhecer suas vulnerabilidades e forças.”

Comunicação como fio condutor

Para Sônia, a comunicação é o eixo central de qualquer política de bem-estar. “Não é apenas o que se diz, mas como se diz — o tom, o olhar, a pausa, a presença. A ausência de resposta também comunica. Pesquisas mostram que o desprezo ativa áreas cerebrais ligadas à dor física. Por isso, líderes precisam dominar práticas comunicacionais que promovam segurança psicológica.” Ela acredita que a linguagem corporativa pode reforçar ou minar a cultura de bem-estar e alerta contra a chamada “ditadura da felicidade”: “Não se trata de infantilizar, mas de restaurar condições mínimas para que pessoas e equipes possam pensar melhor, relacionar-se melhor e inovar com mais liberdade.”

Seu trabalho vai além das empresas. Nos projetos de “cidades de felicidade”, a escuta é o ponto de partida. “Ao dar voz ao cidadão, conseguimos identificar aspectos sensíveis e necessidades específicas. Isso transforma a gestão pública em corresponsabilidade.” Escolas e hospitais também entram nesse movimento. “A comunicação pode ajudar a desenvolver competências emocionais e sociais fundamentais para o século XXI. É sair da lógica de apenas informar para realmente sustentar bem-estar.”

Olhando para o futuro, Sônia vê uma mudança importante no papel da comunicação corporativa. “Não se trata apenas de dizer o que fazer, mas de mostrar como fazer de um jeito equilibrado para as pessoas. O bem-estar deixa de ser periférico e passa a ser eixo central da cultura organizacional.” E deixa um conselho para os profissionais de comunicação: “O ponto de partida é mudar o enquadramento das histórias. Incluir felicidade não significa produzir conteúdos positivos, mas ampliar o olhar para qualidade de vida, saúde emocional e impacto real. É assumir um compromisso editorial: informar, mas também contribuir para uma visão de mundo mais consciente, humana e sustentável.

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