Em outubro, mês em que homenageamos aqueles que moldam vidas com palavras, gestos e acolhimento, escolhemos uma história para celebrar todos os professores — e, ao mesmo tempo, lançar luz sobre uma ferramenta poderosa que pode ultrapassar os muros da escola: a comunicação emocional.
A protagonista desta trajetória é a brasileira Sandra Hoffmann, que hoje atua como bibliotecária nos Estados Unidos. Ela nos presenteia com a “Jarra Mágica” (The Magic Jar), um livro infantil que nasceu de um momento de vulnerabilidade, mas floresceu como um símbolo de conexão, empatia e transformação.
Tudo começou em 2011, na cidade de Milwaukee, nos Estados Unidos — uma das mais violentas do país. Sandra, recém-contratada como professora de Jardim de Infância, se viu diante de uma sala de aula turbulenta, com crianças que carregavam nas mochilas bem mais do que cadernos: medos, traumas, fome, abandono. Aos poucos, ela compreendeu que não era apenas sobre ensinar letras ou números. Era sobre escutar. Era sobre enxergar.
Exausta e à beira de desistir, Sandra teve uma inspiração simples, mas profundamente humana: pegou uma jarrinha de plástico que havia usado para distribuir doces no Halloween e decidiu transformá-la em um espaço simbólico de acolhimento. Assim nasceu a “Jarra Mágica” — uma atividade que começava com as crianças sentadas em círculo, no carpete, antes da aula. Sandra abria a jarra vazia e compartilhava como estava se sentindo naquele dia. Por exemplo, dizia: “Hoje estou triste porque discuti com minha mãe.” Então, simbolicamente, pegava a tristeza com a mão e colocava dentro da jarra.
Cada criança, ao receber a jarra, podia escolher o que fazer: falar sobre seus sentimentos e colocá-los na jarra, apenas colocar o sentimento sem explicar, passar a vez ou até dizer que estava feliz e preferia guardar aquele sentimento bom consigo. A escolha era sempre da criança — e esse respeito à individualidade era essencial. A jarra passava por todo o círculo, e o que se viu foi a construção de uma comunidade. Crianças que antes se sentiam sozinhas começaram a perceber que outras também enfrentavam dores semelhantes. A “Jarra Mágica” não apagava os sentimentos, mas criava espaço para que eles fossem reconhecidos e compartilhados.
Da sala de aula para o mundo corporativo
Sandra acredita que a proposta da “Jarra Mágica” pode ser adaptada para diversos universos, inclusive o corporativo. “No mundo do trabalho, a vulnerabilidade é vista com muita resistência. Por isso, talvez os executivos não se sintam confortáveis em colocar suas tristezas dentro de uma ‘jarra mágica’. Mas imagine um recipiente em uma sala de reuniões, onde colaboradores possam escrever anonimamente como estão se sentindo e colocar seus bilhetes ali. Em uma reunião, alguém poderia ler os sentimentos compartilhados — sem revelar nomes, mas revelando o clima emocional do grupo. Talvez, assim, a empatia floresça. Talvez, assim, a escuta se torne ponte — e não barreira”, sugere Sandra.
A “Jarra Mágica” é um lembrete suave, mas firme, de que todo comportamento tem uma história por trás. Seja de uma criança que se joga no chão por não saber expressar o que sente, seja de um colega de trabalho mais reativo, que talvez só esteja sobrecarregado ou se sentindo invisível. “O mundo corporativo, mais do que nunca, precisa aprender a escutar com intenção. E a se comunicar com propósito”, completa.
Sandra defende que nenhum sentimento deve ser ignorado — e que, quanto antes ensinarmos às crianças a expressar suas emoções, mais adultos emocionalmente saudáveis teremos no futuro. Mas se não fomos ensinados, ainda há tempo.
Nesta homenagem a todos os professores, celebramos não apenas os que ensinam com o conteúdo, mas com o coração. E que nos inspiram a aplicar as mesmas lições em ambientes tão diversos quanto salas de aula e escritórios. A “Jarra Mágica” é, acima de tudo, um convite: que possamos, todos os dias, abrir espaço para ouvir, acolher e transformar – dentro e fora das salas de aula.
Publicado originalmente em inglês, a “Jarra Mágica” ganhará uma versão em português (ainda sem data prevista), respeitando as nuances culturais e adaptando termos como o “Reset Spot” (que será traduzido como “Cantinho da Pausa”). Mas sua essência permanecerá a mesma: a importância de criar espaços seguros de expressão emocional.
Para quem quiser adquirir o livro: https://www.amazon.com.br/s?k=the+magic+jar%2C+sandra&crid=12P7TEFR9UDBK&sprefix=%2Caps%2C65&ref=nb_sb_ss_recent_1_0_recent
